Prólogo:
Metrô, game-boy, Mac-Donnalds, dreads laranjas, batata com sorvete... Cara branca e boca rosada. Sete meses depois uma luz, alguém entra e não percebe a barreira, entra e se sente em casa. Não bateu na porta e passou pelo bloqueio sem nem ver. Batata com sorvete eu nunca tinha comido. Experimentei e amei no primeiro instante, no primeiro momento. Estou vivo novamente.
Batata com sorvete
1º edição.
Capitulo I A entrega.
Capitulo II A verdade
Capitulo III A cumplicidade
Capitulo IV A troca
Capitulo V A decepção
Capitulo VI O Açoito
Capitulo Final A gota
FDS (Fim de semana)
Fita em laço, vermelha e pregueada, como muitas outras que ela já recebeu. Dentro um presente engraçado... Como esses, ela já recebeu vários de outros também. Um presente meu... Já recebeu alguns.
No “dedo” do presente um outro presente simbólico. Algumas gramas de metal nobre formam a composição. Presente que se da pra quem se quer. Outro laço colorido pra enfeitar e está pronto para entregar. Não vejo a hora.
Idas, entradas, saídas, túneis, carros, Metrô, ônibus, carona, pessoas, caminhadas, táxis, quilômetros... Reencontro, finalmente o reencontro.
Corre de braços abertos, me pega e ma abraça (me sinto criança agora e disfarço as lágrimas), dou beijos desajeitados. Esqueço de respirar, volto a respirar. Não sei onde por a mão, o que fazer... Não estou calmo.
Andamos juntos, sentamos juntos... Há um problema e me ofereço a ajudar. Vim pra resolver outro, mas se existe um terceiro; resolveremos por que não?
Paciência, o hotel eu já visitei, o quarto é péssimo e nem me dei conta disso. Infiltrações no teto, banheiro minúsculo, janela pra rua, má iluminação. Não percebi nada disso porque há um problema maior que o quarto do hotel e a prioridade é resolvê-lo. Um problema de minha alçada: Fotos. Como as odeio agora. Fotos, malditas fotos.
Sento e mostro como resolver... Algo pisca na tela, será que fui eu?
Não, não fui, é ELE, ressurgido, aparecido e contrariando as regras do deletado e bloqueado. Colocando à prova uma verdade e um resto de confiança, mostrando que leis de Murphy existem. Se estiver ruim, é sinal que vai piorar. Piorou.
Esqueço de respirar novamente... Tremor, raiva, decepção, dúvida, insegurança, decepção, decepção, decepção, decepção, decepção.
Sete vezes decepção.
Reunimos-nos no quarto, e ainda não respiro. Agora eu percebo que é péssimo, agora voltei ao mundo, vejo novamente as cores e cheiros do mundo. Agora sim o quarto é ruim. Não comporta uma conversa.
Ela toma iniciativa e trocamos de quarto. Esse é melhor, sem graça, mas melhor... O frigobar aos pés da cama gela a água. Tem cerveja lá também; não bebo... Tem coca-cola (todos gostam de coca-cola) agora não gosto. O ventilador do teto é brega daqueles de cordinha com pás de madeira imitando coisa boa, fica sobre a cama e pela posição deve dar trabalho a ligar eu penso...
Alheio às coisas belas só estou vendo o pior, onde será que esta o problema? Onde está a maquina que irá me fatiar daqui a pouco? Pilhado já me preparo, adrenalina, pele fria e rija e lá vem:
Conversa, entorpecimento, nervosismo, mentiras, crimes. Não tenho pique pra investigação... Não escuto nada. De vez em quando o frigobar faz “tec”, sei que é o termostato ligando. Mais meia hora de conversa e textos decorados... “Tec” novamente... Agora fiquei nervoso, que merda de termostato!
/////// Um jantar programado, um presente guardado, um amor abalado. ///////
Carro, simpatias e conversa fiada, conversa agradável. Papo descartável. Voltas, curvas subidas e descidas. Chegamos, cuidado com o caracol; a escada, é caracol, sou alto e baixo a cabeça... assim de cabeça baixa subo para enfrentar aqueles que gostariam de me ver vencendo e feliz. De cabeça baixa tento ser ator. De cabeça baixa converso com os donos da cria.
Experimento peixe, dos bons, bem feito, feito com muito carinho. Minha opinião é importante e respondo não sei o que, está gostoso. Mas não é peixe que quero.
Quero gritar, quero sumir, quero correr, quero bater, quero fumar. Não faço nada disso. Nunca quis. Não sei o que quero. Dúvidas e só elas. Estou coçando a cabeça dando batidinhas na barriga e dançando “macarena”. Muita coisa.
Jantar agradável, conversa agradável, pessoas agradáveis. Não estou me agradando, não consigo entrar no clima. Estou mal e não consigo aproveitar nada. Estomago fechado, como pouco, dessa vez “mais” pouco do que o normal. Fim de janta e inicio de histórias. Papo agradável novamente, não é o que preciso. Não agora.
Privacidade, vácuo. Um lugar sem nada; nem vida nem tempo. Um escritório. Sala anexa. Tremo, não é de frio. Histórias, papos, conversas, explicações... Nada agradável.
Acordei e o que estou fazendo aqui? Acordei e por que estou aqui? Quero ir, quero ir agora. O “tec” do frigobar agora fez sentido. O filho da puta do “tec” fez sentido. O filho da puta do tec dizia: “Wake up”, dizia acorda desgraçado filho da puta. Vê se toma uma atitude,
Idas, vindas voltas, subidas descidas. Estou na porta do hotel que ainda guarda meu presente. Estou na porta do hotel com ela. Conversas, papos, histórias explicações. Não tem tempo, não tem clima, não tem condições, não tem explicações. Entro e bato a porta.
Entro e me jogo na cama. Entro e ligo o chuveiro. Percebi a água fria tarde. Eu estava mais frio que a água gelada me esquentando.
O presente na mochila. Compulsão de destruição. É de metal, na tentativa de quebrar me machuco, piso em cima, mas me escapa... Embaixo da cama, peguei. Bato a porta, raspo no chão, piso em cima, estou descalço e já é tarde, o chão é frio e cinza. Estou na rua.
Fitas em laços pregueados, dedo, presente, lixo. Tudo no lixo... A lata não me agüentaria se eu pulasse. Não está suja o suficiente.
Quarto: Uma duas três quatro paredes, um banheiro e um frigobar. Uma TV e ventilador de teto brega. Cama grande, até que confortável. Não assisto TV e não durmo em cama. Dormi sem chorar, dormi como pedra olhando para um vaso de flores artificiais. Flores fabricadas, beleza sob encomenda. Muitas belezas daquelas já foram feitas, iguais às outras... Durmo pensando nisso.
Manhã vem sono vai às 7:30, rolo, rolo rolo, rolo, sete vezes rolo. Crio coragem e levanto, me arrasto ao saguão que serve café até as nove e só chego nove e dez. Como pão, manteiga, presunto e queijo. Tomo suco de laranja e engulo gelatina. Gelatina gostosa. Saio, vejo o sol, caminho em círculos, compro jornal, sento na praça, o telefone invoca mais uma conversa. Não negaria.
Conversas em banco branco de praça, velhinhos passeando, igreja lotada de domingo. Conversas, conversas, conversas, conversas, conversas, conversas, sete vezes conversas. Sete explicações, sete porquês, sete verdades, sete resultados, sete destinos, sete complicações, sete...
Boca rosada em cara branca, mexe, mexe, mexe não escuto. Fiquei surdo. Choro e me rasgo por dentro. Boca rosada em cara branca, como sonhei em vê-la. Boca rosada em cara branca, como lhe desejo. Boca rosada em cara branca, como me magoou. Muitas coisas, muitas confusões, sete vezes confusões.
Horas, horas, horas, pouco perto dos dias e semanas sem boca rosada em cara branca.
Sete minutos foi o tempo do encontro à destruição. Sete vezes moído sete vezes açoitado, sete vezes humilhado sete vezes...
Hora de dar tchau, sete vezes tchau. Tchau sem beijos que desejei mais de sete, tchau sem abraços que sonhei mais de sete, tchau sem cheiro que imaginei mais de sete, tchau sem presente que procurei mais de sete, tchau sem mais nada. Apenas tchau a dois passos de distância ou mais.
Apenas um até mais e boa sorte. Apenas isso.
Choro, enxugo e estou de volta. De volta ao mundo. A dois passos de distância ou mais. De volta ao mundo e de costas para o passado. Sempre a dois passos de distância ou mais.
Epílogo.
Saldo:
O que levei: Um presente, um coração partido, um sonho, uma nova visão.
O que deixei: Um presente no lixo, um coração no quarto, um sonho no ar, meus olhos no escuro, minhas visões num armário. A dois passos de distância.
O que trouxe: Nada.
O que abri mão: Muitas coisas.
O que quero: Milagres
O que temo: Que muitas coisas aconteçam com alguém.
O que torço: Que muitas coisas voltem a acontecer, mesmo tendo medo, mesmo não sendo comigo, mesmo eu estando mal. Torço por muitas coisas boas.
O que morreu: Muitas coisas.
O que restou: Um mundo a dois passos de distância, um e-mail, dois telefones.
E agora?
Agora junto minhas lagrimas, guardo minhas angustias, mato minhas pretensões, ignoro meus medos, atropelo minhas vontades e encaro o mundo a dois passos de distância na esperança de alguém atravessar os portões como já fez. Na esperança de alguém entender o que quer e porque quer. Na vontade de alguém não pensar em quantas fichas vai jogar. No intuito de deixar as coisas fluírem e quebrar barreiras. No sonho de um dia poder confiar, no sonho de um dia poder me entregar e ficar junto de boca rosada em cara branca. No sonho de que boca rosada em cara branca queira o mesmo. No sonho de tornar as coisas simples como 1+1 são um.